Estava em casa de folga brincando com o cachorro lambão, quando o porteiro lhe entregou a correspondência. Entre as várias contas e impostos para pagar havia um envelope diferente. Ele abriu e, imediatamente, caiu para trás. Era um convite de casamento.

Anos e anos sem notícias dela, fora apaixonado por mais de 10 anos sem nunca conseguir, ao menos, um beijo. Creditava à antiga paixão o atraso em perder a virgindade aos 25 anos.

Eram unha e carne, ela dava mostras que sabia de sua paixão e usava, maliciosamente e maldosamente, isso a seu favor. Costumava chorar os foras que levava em seu colo e falar sobre seus novos amores. Machucava ele, e muito. Mas ele estava sempre lá, ouvindo atentamente.

Resumindo, era um mané.

Um dia resolveu encarar os fatos e desistir de sua paixão pseudo-platônica. Não atendeu mais seus telefonemas, mudou-se e, enfim, tocou sua vida.

Agora, recobrando-se do choque e lendo pela enésima vez o convite. Estava num papel bonito e em letras douradas, mas, ao contrário da música de corno sertaneja, não havia nada escrito sobre ele ser o amor da vida dela. Rapidamente recobrando a razão, decidiu que não iria ao casamento, mesmo não sabendo como ela descobriu seu endereço.

De terno impecável, dias depois, ele estava na cerimônia de casamento. Decidira enfrentar seus antigos fantasmas e, também por curiosidade, vê-la depois de alguns anos. Surpreendeu-se.

Ela estava deslumbrante no vestido de noiva, tão deslumbrante quanto linda e, apesar desse detalhe, ele não sentira nada por ela. Parece que vencera seus fantasmas. Ela se encaminha até ele.

- Oi!
- Oi!
- Há quanto tempo.
- Pois é, muito tempo.
- Não retornou meus telefonemas.
- Muito trabalho e falta de tempo em casa.
- Que bom que veio.
- Obrigado pelo convite. Espero que sejam felizes.
- Obrigada, aproveite a festa.

E assim, diplomático, foi o último diálogo entre eles. Por dentro, ele estava contente, pois vencera, de fato, seus medos, só lamentando o fato da cerveja quente e dos salgadinhos oleosos.

No salão, num canto, a noiva limpava uma lágrima de saudade.