Estação Sé 19h00, por Thiago Barrozo
Todo mundo que acompanha o blog há algum tempo sabe os apuros que passava na época em que morava na Zona Leste, principalmente em relação ao Metrô, na famigerada Linha 3 Vermelha-Leste-Oeste.
Tentei descrever o que acontecia, mas o Thiago Barrozo, do Comunique-se, mostrou, com maestria, o inferno que é a Estação Sé por volta das 19 horas.
Também concordo com o parágrafo final.
Estação Sé 19h00, por Thiago Barrozo
As escadas-rolantes estavam paradas. “Desaforo”, pensei. “Com tanta gente, com tanta pressa, com tanto tudo, como eles podem fazer isso?” O incômodo cresce ao notar o rapaz brigando por espaço enquanto se agarra fielmente às muletas. No mar de corpos, ele está em desvantagem. A placa indica o sentido. Corinthians-Itaquera. Bufo e avanço os degraus.
Gato escaldado sente o perigo muito antes que ele dê a cara. Não sou gato, não sou escaldado, mas não sou bobo. Antes de concluir a subida, percebo uma enorme quantidade de pessoas. Pressinto, mas não quero acreditar. Enfim, olho.
O número de pessoas aguardando a chegada do trem é tão imenso que assusta. Trafegar pelos corredores antes de optar por uma das demarcações de acesso às portas é impossível. Ao redor, margeando a parede, um grupo de adolescentes sentados no chão se diverte com um baralho. Um casal, posicionado no extremo oposto, lamenta. Fantasio que este atraso inesperado não constava no roteiro dos dois. A vendedora da loja de doces e salgados se desdobra em mil para atender a todos.
Observo mais um pouco e decido não me juntar ao gigantesco grupo do empurra-empurra. Vou sair da estação e tomar um suco. Quem sabe, se der sorte, encontro algum sebo aberto. Subo o lance de escadas (estas, sim, rolantes). Neste andar, noto um outro tipo de grupo, o dos observadores. Apoiados na mureta e com a vista privilegiada, assistem a tudo.
Entro para o time e consigo me acomodar rente ao corrimão. Lá embaixo, encontro meus personagens. O primeiro é um senhor de meia-idade, calvo, dono de traços nipônicos, terno, gravata e óculos. Conto oito o número de trens que passam sem que meu colega consiga embarcar. No nono, ele é empurrado por uma multidão que grita, resmunga e uma mala azul que o açoita pelas costas. Lá se vai. Sayonara.
Caminhando suavemente e com ar pomposo, encontro a minha próxima personagem. Loira, vinte e poucos anos, corpo ereto sob uma calça preta justa e um decote chamativo. Indecisa entre qual corredor escolher, direito ou esquerdo, vejo que sua dúvida é acompanhada por três rapazes por ela desconhecidos e que não apresentam nenhum vínculo entre si. A não ser ela, que, ao caminhar para o corredor esquerdo, tem seus passos copiados. O vagão que ela escolher será o mesmo deles. Penso no tumulto, no empurra-empurra e no espreme-espreme. Penso nas mulheres em situações como esta.
A linha amarela de segurança, por diversas vezes lembrada para não ser ultrapassada, é ignorada. Além dela, um pai segura sua esposa e filha. O trem pára e abre as portas. A exaltação dos passageiros na plataforma empurra o senhor para longe da entrada. Ele cambaleia e é passado para trás. O mesmo grupo que explode em direção à porta trata, naturalmente, de levar consigo a senhora e sua filha. O alarme soa e a porta se fecha. O pai trêmulo, do lado de fora, gesticula para a família dentro do vagão. O trem parte. Ele leva a mão à cabeça.
São 19h35 quando abandono o mirante e rumo para fora da estação. Saio com a sensação de que uma intervenção divina se fez presente para assegurar que nenhuma pessoa tivesse sido arremessada aos trilhos, ou uma pancadaria tivesse ocorrido, levando em conta as diversas indelicadezas vivenciadas. Sinto que este fato carece, porém, de uma intervenção humana capaz de devolver a dignidade aos seus justos donos.
(*) Radialista e estudante do 7º semestre do curso de Jornalismo



July 10th, 2008 at 12:34 am
gostei do blog
nao conhecia
parabens pelos textos e pela dinamica
bjso
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