Recife

O celular não toca.

Ela disse que ligava, mas já se passaram algumas horas, que parecem várias eternidades, já apelando para o clichê básico.

Ele sabe que provavelmente o telefone não irá tocar, mas se prende à vã esperança.

Seria certo ele ligar e acabar com o último pingo de dignidade que a ele resta?

Não, ele sabe que algo ainda tem que ter.

Foram mais de três mil quilômetros de viagem, sabendo que ela não viria. Chegou a ligar para ela, avisando que iria, e ela, para lhe dar uma falsa esperança, não confirmou e nem recusou seu convite.

Só disse que ligava.

São três horas da manhã, ele está acordado com seu celular ligado e recarregando na tomada, esperando a ligação.

Na TV em um canal passa um leilão de gado, no outro venda de brincos e, em todos os outros, Jogos Olímpicos. Todos ignorados por ele.

Ele acende seu Vila Rica, do segundo maço da noite, e olha pela janela a noite quieta da cidade a qual se sente um intruso.

Ele sabe que, provavelmente, este é um ponto final de anos de conversa. Ela irá viver sua vida, e ele, a dele.

A vista da janela só o faz se perder nos pensamentos

Nunca se (re)encontrarão, não conhecerão as famílias e nem agregarão os amigos do outro aos seus.

Mas ele queria ouvir sua voz pela última vez.

Queria dizer a ela, pela última vez, que foi legal o tempo que passaram, teoricamente, juntos. Dizer que as conversas, promessas de mundos e mares ao outro foram legais, mas que agora era hora de cada um cuidar da sua vida e de seu destino, sendo feliz com quem quer que seja.

O maço de Vila Rica acaba, a China ganha mais uma medalha e o celular toca.

Ele corre para atender e nem deixa tocar a segunda melodia da música que representava a união dos dois. Só teve tempo de ouvir uma voz feminina dizendo:

- Recarregue seu celular até o dia 10 e aproveite as promoções incríveis da TIM.