Por Nara Abdallah

No caminho para São Paulo, dentro daquele avião frio, muitas questões e poucas respostas.

A angústia, que já era companheira freqüente daqueles últimos dias, resolveu se hospedar de vez. Era como se tudo que eu tivesse imaginado, não estivesse mais em minhas mãos, e de fato não estava. A sensação de não ter o que fazer naquele momento confortou-me. Simplesmente tinha que ficar ali, esperando e acreditando em tudo que senti e pensei e, ao mesmo tempo, tentava me manter distante.

Essas duas sensações ambíguas tomaram conta do meu corpo no caminho para casa. O trajeto era curto, aproximadamente 45 minutos de vôo.

Desci do avião e caminhei até a esteira das malas, o tempo demorava a passar. Na hora que efetivamente sai tentei não pensar em nada, mas foi em vão, deixei o corpo ficar como queria.

Avistei você, vindo em minha direção, com uma expressão que refletia aquela semana inteira que passamos, sem sentido, o seu olhar estava parado, nervoso e ansioso.

E eu? Confusa, tensa, um pouco distante, mas feliz de te ver ali, é como se sua presença validasse o que eu sentia.

A princípio, nenhuma palavra. O silêncio, simplesmente o silêncio. Depois, algumas banalidades, todas camuflando as questões que ainda viriam à tona. O que fazer com aquele pacote de sensações que estavam em mim? Tinham sido alimentadas e validadas. Passar por cima de tudo? Sim, era necessário ouvir. Ouvir o que você tinha a dizer com a cabeça limpa e o coração aberto, porque só daquela forma aquela distância a não visível e a de fato seriam transpostas.

Porque o corpo sempre reage, é motivado pelas sensações que alimentamos.

- O que vamos fazer?
- Vamos almoçar.

Tanta coisa a ser dita, tanta coisa por dizer.

No caminho, o entorno ficou apagado, não existia nenhum outro contexto, só aquele.

Sentamos, pedimos o almoço, que ficou esfriando em cima da mesa.

Ali, olhando a sua expressão, vendo seus olhos, era nítido, era tão vivo aquele sentimento, aquela doçura, o que planejamos sem dizer, cada um com a sua história, tentando reconstruir uma outra.

Não foi difícil passar por cima de tudo, porque a tranqüilidade que desenrolou nasceu do coração e isso trilhava as condutas de uma forma quase abençoada e perdoada.

Depois daquele momento, de tantas teorias, palavras, amarguras, verdades e sentimentos, existia apenas um querer que movia: a vontade de estarmos juntos. Ninguém estava ali querendo ganhar, medir força, os dois disponíveis para viver o que o coração estava propondo.

Era como se nós dois estivéssemos dedicados a uma causa maior e mais bonita.

Uma relação sem precedentes, traduzida em companheirismo, parceria, dedicação e comprometimento.

Nara é jornalista, escritora e atrapalhada por natureza, não nessa mesma ordem. Ama o que faz e é apaixonada pela vida e, principalmente, seu filho Tomás. “Razão da minha vida”, diz ela. “Mimado”, diz eu.